|

Carlos Barbarito
GOUMA APROXIMAÇÃO À
NARRATIVA DE ALFONSO PEÑA
A metade da noite. Como poderíamos fazer para medir a noite?
A. P., O doce sortilégio dos elevadores
Falam, se inclinam, sorriem, nas entranhas do poço.
José Lezama Lima, A maior fineza
1.
Durante anos, os primeiros quinze em minha vida como leitor, li somente
narrativa. A poesia, eixo e fundamento de existência de criador, era
então algo remoto, quase desconhecido. As aventuras, tanto na superfície
do mundo como em seus abismos, no espaço sideral, ocupavam a maior parte
de minhas horas logo que voltava da escola. Eu morava em uma casa muito
velha, hoje demolida, em Pergamino, uma cidade situada ao norte da
província de Buenos Aires, em pleno Pampa Úmido; no quintal de terra,
debaixo do paraíso (o Paraíso), me sentava em uma cadeirinha de madeira
e palha. Não poderei nunca ter noção exata da contribuição daquelas
leituras, falo do que aquela carga de imaginação pôde enriquecer-me, mas
posso afirmar que essas páginas (Verne, Carroll, Salgari, também outros
autores de regulares e péssimas novelinhas de ficção científica etc.)
foram definitivas para minha formação como escritor. Agora, a razão da
minha guinada para a poesia, em uma tarde de chuva inesquecível em que
escrevi meus primeiros versos, quando ainda adolescente, até hoje segue
sendo para mim um mistério – o que, sem dúvida alguma, festejo. O
estranho é que, desde há anos, leio mais sobre ciência do que sobre
literatura e leio mais arte que poesia e, sobretudo, gosto de trilhar
páginas de textos de difícil ou impossível classificação, raros,
secretos, obscuros. Em alguma parte de minha cabeça se encontram e se
abraçam Hawking e Paracelso, e então tudo pode acontecer. Poderá dizer
algo diferente Alfonso Peña, velho amigo cuja distância geográfica,
apenas geográfica, me reclama um prólogo para seu novo livro? Para ele e
para mim, arrisco a afirmar, aquele Newton que, em sua câmara, dispunha
de ferramentas de rigorosa ciência moderna sem esquecer alguns
instrumentos da velha alquimia. Imagino Alfonso, como um homem
contemporâneo, atento aos seus dias e ao seu século, sair de noite ao
campo, e, na intempérie, recolher em amplos e brancos lenços o colóide
rubi. Literatura: agricultura terrestre e agricultura celestial.
2.
Belomante: quem adivinha através de tiros de flecha. A corda bem tensa e,
logo, o disparo, segundo a direção, curva e lugar alcançado, tal ou qual
futuro. Gosto de pensar no escritor como cultivador desta mancia.
Alfonso Peña lança flechas e que aconteça o que tenha que acontecer;
seus personagens saem ao mundo, amam, morem, se abraçam e se golpeiam,
belo e terrível remoinho, onde tudo gira, que é a vida. Mas, também
berílistica, método de adivinhação mediante as imagens que se formam nos
espelhos. Um espelho é, para Borges, sinônimo da multiplicação – símile
da cópula –, uma abominação; é, do mesmo modo, uma impossibilidade para
os vampiros; é, situados em certa ordem, labirinto ou proliferação dos
corpos na orgia que, desde uma posição exata, contempla o voyeur. Cada
conto de Alfonso Peña é um sistema de espelhos, em vigília, sonhando ou
em transe. O mundo deste narrador costarriquenho: galerias, passadiços,
subterrâneos, em penumbras, escuros, apenas sulcados por uma luz que vem
de alguma greta no telhado. Um mundo freqüentemente ímpio que o narrador
vê com piedade. Tem razão Tomás Saraví: …um sorriso não cínico senão
cheio de piedade, porque adivinha na loucura generalizada o drama
escondido em cada congênere. Flecha e espelho; no fundo, como sempre, a
morte; antes, os dias e as horas, o desejo, o mar, as ondas no mar; a
insistente pergunta. Tem que ter um sentido, não é possível que isto não
tenha um sentido. E, ao mesmo tempo, a antiga visão que viu Heráclito há
séculos: crianças que brincam com dados.
3.
Atrás da porta, o Paraíso. Ou o inferno. Lembro-me de uma novelinha de
um tal Clark Carrados (logo soube que era pseudônimo de um espanhol):
uma porta, no segundo andar de uma casa, inclusive era possível vê-la
desde fora, uma porta absurda, que não dava para lugar nenhum. Mas,
aberta desde dentro, caminha em outra dimensão: outro planeta, selvas de
raras samambaias, surpreendentes animais. Um paraíso? Sim, e também seu
oposto: enredos para extraviar-se, bestas com enormes dentes, mundos
calcinantes, asfixiantes. Nos contos de Peña há, uma e outra vez, uma
profunda greta; através dela, outro lado, sim, que promete luminosidade,
relâmpagos, estalos e oferece novas dores, novas angústias. Em Peña
sempre é noite, para mal e para bem, punhais, decotes, drinques, gritos,
guitarras, um prolongado andar deixando no chão as pegadas que delatam
uma travessia tão consciente quanto arriscada. Ainda que a cena
transcorra de dia, é de noite – há sombras que caminham sem sapatos,
vestidos abandonados sobre as cadeiras, flashes remotos, baralhos em
trapaças anônimas onde, de novo, um jogo pode decidir a sorte do
universo. E, a cada linha, detrás de cada muro ou janela, a suspeita de
que ali pode estar Behemot, dupla presença que é tanto boi dedicado ao
Messias quanto elefante, mastodonte com olhar e jeito de demônio.
© Carlos
Barbarito, em
Muñiz, Buenos Aires, noite, 3 de novembro de 2003
|