Carlos Barbarito





BREVES APONTAMENTOS PARA UMA POÉTICA


Complexo, raro ofício este de trabalhar com as palavras. Trabalho pessoal, solitário, empreendido como uma aventura. Labor que acarreta fadigas, porque se irmana com a vigília.
Alguma vez terei dito, ser poeta é ouvir vozes: não estamos longe da actividade do médium nem de certas formas de loucura. Oiço vozes, minhas vozes interiores, e só a elas sou fiel − fidelidade que, como toda que tal precisa de ser, não descarta a traição, inclusive, sente prazer ante a ideia −. Dito de outro modo: a meio do poema, de súbito, uma súbita derivação, um caminho imprevisto, com frequência oposto − isto fascina-me −.  Um poema, todo o  poema, é obra humana e, como toda a obra feita pelo homem, é complexa. Gil de Biedma sustenta, com razão, que complexo é sinónimo de impuro. E impuro significa − segundo o dicionário −, mesclado com partículas grosseiras ou estranhas a um corpo ou matéria. Esta impureza é inseparável da ideia de poesia, sem ela a poesia seria como um Manet todo água  sem nenúfares, com a perca que issosignifica. O abraço dos amantes, a poesia beba suores, gemidos, ligeiras marcas de unhas na pele; doutro modo  a cena estaria separada da vida, aconteceria estranha ao humano. Não seria poesia, seria outra coisa, pretenciosamente pura, etérea, angelical, inumana.

Escrever um poema é um acto perigoso. Empurra-nos tanto até ao centro do mundo, até à  medula de nós mesmos e de vós, converte-nos em estrangeiros. Isola-nos, exila, faz-nos  estranhos. O idioma que usa o poeta não é de todos os dias, quotidiano; é, como bem disse
um contemporâneo, um dialecto. Por mais que fale com palavras do dicionário ou  aparentemente comuns, o que delas faz o poeta, é sua alquimia, nas sucessivas destilações, em busca de outros planos, doutras significações, situa-as em outra parte, as aparenta
com a magia, as enche de poderes, as converte em sistemas de espelhos, em intrincados jardins. A poesia depara descobrimentos mas, também, trás saudades.
© Carlos Barbarito       

Publicado em: http://www.imaginando.com/literatura/archivos/000038.html

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