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Carlos Barbarito
FIGURAS DESDE LEZAMA LIMA
Gosto de fumar. Fumo cigarros desde os 19 anos. Uma das coisas que
seguem comigo é essa preferência por fumar. Lembro de ter visto em certa
ocasião uma fotografia de Paul Valéry (um grande fumador de cigarros,
igual a seu professor Stephan Mallarmé) brincando com a fumaça entre os
dedos, como se eles mantivessem um diálogo. Linguagem da fumaça: em
coluna, símbolo do caminho da fogueira até a sublimação; alma separada
do corpo; relação entre a terra e o céu. Próximo ao “Paseo del Prado”,
fuma e escreve: A fumaça que se desfez no crepúsculo / ao apontar os
telhados em escala, como reaparecerá? Se tudo é fugaz, fugitivo, o que
se pode dizer da fumaça? Mais insegura que o barro, sua antítese,
participa por um instante da respiração e, praticamente no mesmo momento,
se perde. Enquanto dura, fazendo parte do ar do quarto, surge a imagem
de uma casa, de outra casa, possivelmente mais verdadeira, na frente não
pode aparecer o gamo que sustentava o céu, mas dentro dela sim, vistos
como através do vidro fosco, o corpo marcado por um fio, um fio, uma
corda onde o homem pula. O fio, outro modo de ser da fumaça, conexão
passageira entre a noite e seus fragmentos, o sal e o fogo, o lodo e a
cal, o quartzo e a sandália, o unicórnio e a borboleta, enfim, entre a
carne e a luz que se distanciam. Agora procure um espelho. Cada espelho
é um rodamoinho e reflete sempre a mão que afunda na água. Porém também
existe o fulgor. O que de pronto destaca uma paisagem vista cem vezes e
ao mesmo tempo recém descoberta, uma frase: Ocorre, querendo ou não.
Ocorre a evaporação, as borbulhas, o golpe do martelo, o ornamento, a
língua do ofídio, o azar e a queda, o prego onde se pendura o chapéu, o
coral, o vinho das cavernas -bebido somente por Rimbaud- , o tédio, o
bosque, Klimt, a exalação, a ilusão, o dialeto. Tudo, cada coisa, fumaça
nascida no estio, e que acabará no inverno, como os ódios que se diluem
no fundo do mar.
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© Carlos
Barbarito, Muñíz, Febrero,
14, 2003
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