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Agulha, revista de cultra
Entrevista
A GRANDE MESA DA POESIA NA AMÉRICA HISPÂNICA,
Agulha conversou com alguns importantes poetas em vários países da
América Hispânica em torno de aspectos que podem ser considerados
balizas viáveis para a identificação de uma consciência poética,
possibilitando ao leitor compreender quais relações estabelecem os
poetas com seu tempo, seus pares e as condições históricas que definem o
próprio desdobramento de seu trabalho. Ao longo de várias edições,
seguiremos ouvindo a diversos poetas, sempre preocupados em levar ao
leitor um cenário que ambiente a visão de mundo desses poetas,
particularizando a realidade da poesia na América Hispânica. Neste
primeiro momento, conversamos com o venezuelano Juan Calzadilla (1931),
o colombiano Raúl Henao (1944), a chilena Sonia Murillo-Martin, os
mexicanos Blanca Luz Pulido (1956) e Eduardo Arellano Elías (1959), o
argentino Carlos Barbarito (1955), os peruanos Pedro Granados (1955) e
Reynaldo Jiménez (1959), e os uruguaios Washington Benavides (1930),
Alvaro Miranda (1948) e Mariella Nigro (1957). (F.M.)
1. Quais são tuas afinidades estéticas com outros poetas
hispano-americanos?
– Se algo se destaca no cenário atual da poesia hispano-americana é a
não comunicação entre autores, inclusive, falo agora de meu país, entre
os que, teoricamente, deveriam estar próximos, ou bem próximos, entre
si. Assim, do Uruguai sei de Héctor Rosales porque é amigo de muito
tempo e de nenhum outro poeta; do Brasil tenho escassas notícias – com a
exceção do Jornal de Poesia –; de outros lugares, meu conhecimento se
detém em nomes e obras da metade do século porque já são matéria de
antologias. Obviamente, é da Argentina de onde me chegam as mais
abundantes notícias e para minha casa muitos poetas enviam seus livros –
aqui faço referência a uma problemática de meu país na questão da poesia
editada: a falta de distribuição e difusão, a dureza que é publicar.
Falo então de meu país. Não há uma estética dominante, embora muitos
tentem demonstrar o contrário, mas sim uma variedade de estéticas que se
desdobram em leque. Cada poeta, trata-se de um fenômeno já de mundo
estendido pelo mundo, propõe sua estética, dá a conhecer sua obra – que
não está, com freqüência, ligada a um estilo, um modo de dizer, uma
única formulação –, com a qual o olha do estudioso dificilmente topa,
ainda que tenhamos muitas antologias. Parece-me que, além desse mosaico,
há pontos em comum entre os poetas argentinos das últimas décadas.
Conseqüências de uma história vivida – e sofrida – que são percebidos no
uso de certas palavras, de certas atmosferas, de certas imagens. É que,
recorro a Adorno, depois de nosso Auschwitz já não foi possível a poesia
como a vinham entendendo e escrevendo; tudo se deslocou, transtornou-se,
li por ali que a elegia, típica dos poetas dos anos 40, abriu caminho
para espécies de fórmulas de exorcismo. É que já não se trata da morte
do corpo com o corpo presente, exposto, que testemunha seu destino, mas
trata-se de um corpo ausente, negado, que obriga os outros a
consumirem-se em perguntas. Acontece que recebo livros – mesmo de
autores mais recentes – onde encontro passagens que parecem ter sido
escritas por mim, ou por poetas de minha geração, e não se trata apenas
de influências – que podem existir, que existem –, mas sim de uma
história ainda não solucionada que segue desatando seus mesmos fantasmas,
obrigando às mesmas perguntas, mesmo que esses poetas não tenham vivido
aqueles dias. Não me estendo em características que os críticos vêem
melhor do que eu; falo do que sinto ao ler nossa poesia das três últimas
décadas: obscuridade, falta de ar, o corpo fragmentado, a solidão. Acaso
esses elementos não sejam distintos do resto do que hoje se escreve na
América Hispânica. Como em tudo, o tempo terá a última palavra.
2. Quais contribuições essenciais existem na poesia que se faz em teu
país e que deveriam ter repercussão e reconhecimento internacionais?
– Há poetas que alcançaram plena ou parcial difusão no exterior: Jorge
Luis Borges, Leopoldo Marechal, Roberto Juarroz, Juan Gelman, Alejandra
Pizarnik, menciono apenas uns poucos, e outros que não o foram em
absoluto. Há múltiplos motivos para isto, de toda ordem. Há livros que,
me parece, teriam que ser lidos além de nossas fronteiras, como Hospital
Británico, de Héctor Viel Temperley, ou Ova completa, de Susana Thénon.
O surgimento da Internet pode contribuir para esse conhecimento. de fato,
já se percebe sinais disto.
3. O que impede a existência de relações mais estreitas entre os
diversos países que conformam a América Hispânica?
– Amiúde se diz que estes não são bons tempos para a poesia. então me
indago: houve alguma vez tempos propícios para a poesia? E mais: o que
significa bom, propício? Acaso se está falando de problemas reais, tais
como os citados anteriormente, acerca de edição, circulação, difusão. Um
poeta, se fiel a seu pensamento, se oposto à domesticação, ao
adocicamento, sempre é perigoso, para ele não há nem lugares nem tempos
propícios. Sempre estará só, ou próximo de uns poucos, em sua tarefa.
Necessita tão-somente de papel e lápis. E sempre há caminhos, quase
sempre imprevisíveis, para que sua obra chegue, cedo ou tarde, aos
demais. O que necessitamos, sim, é derrubar os tabiques entre uns e
outros, que o poder levanta porque o poder sempre tem medo, utilizar
todas as vias, todas as possibilidades de comunicação. Perguntar: quem
está do outro lado do muro?, como na obra de Pink Floyd. Esta página
idealizada no Brasil, como tantas outras no continente, contribui
plenamente para essa tarefa que, creio, é imprescindível.
http://www.secrelcom.br/jpoesia/agmatesp7.htm

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