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Carlos Barbarito
Andrea Miranda:
imagens do humano
O retrato é, excetuando-se o instantâneo, a mais comum das fotografias.
Cada período da história do meio, se comparado com outras artes, oferece
um estilo hegemônico e poucas são as obras que, ao longo do tempo,
conseguem quebrar essa hegemonia. Em geral o panorama é quase monótono
apenas variando certas poses e outros elementos como a expressão, a
roupa, a localização e a composição (não muito para que a fotografia
continue dentro do território do aceitável).
Porém, por sorte, há exceções a regra e de vez em quando alguém se
atreve a ir mais além do esperado e do habitual, como David Octavius
Hill e Robert Adamson, os quais são citados em livros, e que já em 1843
e 1844 expressavam uma maneira de retrato não pictórico mas sim direto,
capaz de expressar caracteres, e que me atrevo a qualificá-los como
pioneiros de um modo de fotografia. Uma fotografia que prefere o real,
solitária exceção para aqueles dias, cujo valor se amplia se levarmos em
conta as limitações técnicas da época. A lista continua com o genial
Nadar, que captava pessoas e não representações de pessoas, autor de um
inesquecível retrato de Baudelaire, do qual se desprende, como no resto
de suas obras, marcada vitalidade, ainda que sempre haja um fundo de
estúdio cinza e escuro. Do outro lado do oceano, Julia Margaret Cameron,
contemporânea do francês, foi a primeira a trazer a um primeiro plano a
complexa psicologia de seus personagens, utilizou para isso objetivos de
grande distância focal. Stieglitz, já então no século XX, foi o autor de
um retrato de Georgia O¨Keefe, figura de grande atração e modelo quase
insuperável, que é um entre centenas ao longo de vinte anos de vida em
comum, fruto de sua obsessão por detalhes ao fotografar. Entretanto, é
Paul Strand, o autor dos retratos que aqui interessam, o autor da
interessante questão : fora do estúdio é possível encontrar retratos
significativos? (ou foi Lisette Model?. Aqui peço aos leitores mais
informação a respeito). O certo é que Strand tirava fotos de pessoas que
encontrava casualmente, na rua, para detectar nelas reações imediatas.
Logo adotou um estilo direto e aberto até conseguir obras de marcante
intensidade. Seu trabalho é base para fotógrafos imediatamente
posteriores, Kertész e Cartier-Bresson, entre outros. Não quero esquecer,
nesta curta resenha, Diane Arbus, cujos anões, nudistas, gigantes,
retardados mentais e fenômenos circenses obrigam a uma imediata e
comprometida resposta do espectador: compreensão ou rejeição.
Andrea Miranda empreende, em sua primeira mostra individual , "Rostros
del más acá" (Universidad Autónoma de Sinaloa, México, Março de 2001) ,
um caminho contraditório: por onde quase todos transitam, oferece uma
quantidade mínima de obras que escapam dos moldes de cada momento
histórico. E assume o risco, mesmo que não o diga por humildade , com a
capacidade necessária para conceder a cada uma de duas obras uma marca
pessoal, diferente. Ela adota um olhar direto e elegante, como no caso
de Nadar, nos proporciona imagens de pessoas e não representações de
pessoas. Seus homens e mulheres, seguindo o exemplo de uma faceta de
Richard Avedon, não têm imagem pública, não ocupam as primeiras páginas
ou telas televisivas, são pessoas comuns, pertencem a determinados
grupos étnicos, são os esquecidos, os marginalizados. São, no seu caso
particular, seres humanos de um país, México, com uma ou outra exceção,
em um determinado tempo, o atual.
Fotografias em branco e preto. Lembro-me da frase de um personagem de um
filme de Wenders:... o branco e o preto remetem ao essencial. Palavras
mais, palavras menos - a memória é caprichosa - , esta afirmação se
ajusta a obra de Andrea Miranda. O que sentir se a autora foi até o mais
profundo do ser humano, frente a esse homem que sustenta em sua mão um
pulso decapitado, dessa família mestiça ou dessa mulher que coloca
rolinhos, "ruleros" dizemos na Argentina, no cabelo da menina?
A arte é maravilhosa e freqüentemente estranha. Nestas fotografias há
beleza, tremor , angústia, esperança e também, algo indefinido que nos
escapa, incompreensível. Andrea Miranda tem estilo, personalidade,
domínio da técnica e amplas possibilidades de expressão. O assunto que
ouvi em um documentário sobre Noel Coward, é tocar a nota exata. Arte do
músico, do plástico, do fotógrafo e que Andrea Miranda leva a sério com
precisão e decisão.
Tradução de Ana María Rodrigues Gonzáles:
© Carlos
Barbarito Muñíz,
Argentina, 2004

Publicado en
Etcetera,
numéro 15, mai 2004
Reactiones: Carlos Barbarito.
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